Buenos Aires, Blanco ou Coyte
Nas duas entradas anteriores surgiu o primeiro problema: os tempos.
Se Gregorio Mayo chegou realmente até ao atual Río Mayo a partir da zona do Lago Fontana, a viagem teve de realizar-se numa margem muito reduzida. E, quando se revê o diário de John Murray Thomas, essa margem torna-se ainda mais difícil de ordenar.
A pergunta, então, já não é apenas quando poderia ter saído Mayo.
Também importa outra coisa:
O que conseguiu realmente ver?
Fontana escreveu que a comissão enviada sob o comando de Mayo descobriu um rio que descia de oeste. Mas, na mesma passagem, acrescentou um dado ainda mais inquietante: aqueles homens teriam avistado outro lago mais a sul.
Esse detalhe muda o eixo da investigação.
Até agora, o problema era cronológico.
A partir daqui, começa também a ser geográfico.
A frase de Fontana
No seu relato, depois de afirmar que a comissão de Mayo descobriu um rio que descia de oeste, Fontana escreveu:
Avistaram outro lago mais a S. que suponho ser o lago Buenos Aires, segundo a distância calculada pelo senhor Mayo.
― Luis Jorge Fontana, Viaje de Exploración en la Patagonia Austral. 1886.
A frase parece menor, quase uma observação secundária dentro do relatório.
Mas contém três dados importantes:
- a comissão teria visto um lago para sul;
- Fontana não o identificou com certeza;
- a identificação com o Lago Buenos Aires foi uma suposição baseada numa distância calculada por Mayo.
O ponto-chave está numa palavra: suponho.
Fontana não escreveu que Mayo chegou ao Lago Buenos Aires. Também não escreveu que o reconheceu diretamente. Disse que a comissão avistou um lago mais a sul e que ele supôs que podia tratar-se do Buenos Aires.
A diferença é importante.
Porque, se se tratava de uma suposição, então pode ser revista.
Há ainda um dado anterior que torna mais estranha a identificação com o Lago Buenos Aires. Fontana conhecia a latitude atribuída à passagem de Simpson e, ao avançar pelo Senguer superior, calculava que esse ponto ficava algumas léguas mais a sul do lugar onde se encontravam. Se o objetivo continuava a ser encontrar uma comunicação para o Aysén, não é evidente por que razão a comissão teria de se afastar muito mais para sul, até uma região tão distante como a do Lago Buenos Aires.
E há outro detalhe que convém ter presente desde o início: Fontana não viu esse lago. O que temos é uma informação transmitida pela comissão de Mayo, interpretada depois por Fontana dentro de uma memória geral da expedição.
Ou seja:
Mayo e os seus homens observaram algo.
Fontana recebeu essa informação.
E depois tentou localizá-la dentro da geografia que julgava conhecer.
Esse encadeamento abre margem para erros de distância, orientação ou identificação.
Primeiro candidato: o Lago Buenos Aires
O Lago Buenos Aires existe, naturalmente. É um dos grandes lagos da Patagónia.
Mas, ao localizá-lo num mapa moderno, surge de imediato uma dificuldade: fica demasiado longe do setor onde se movia a expedição.
Para que a comissão de Mayo tivesse visto realmente o Lago Buenos Aires, seria necessário aceitar uma marcha muito mais extensa do que a sugerida pela cronologia disponível. Não só teriam de ter saído da zona do Lago Fontana, avançado para sul, encontrado um rio que descia de oeste, reconhecido esse rio, tentado internar-se em direção à cordilheira e regressado ao Senguer. Além disso, teriam de ter alcançado um ponto de onde fosse possível avistar, ou pelo menos inferir, um lago situado muito mais a sul, mesmo para lá do atual vale do Río Mayo.
Isso torna o percurso extremamente exigente.
E não apenas pela distância.
Fontana fala de uma comissão de dez homens sob o comando de Mayo. Uma marcha longa desse tipo teria exigido cavalos suficientes, previsões de comida, tempos de descanso e alguma organização para regressar sem comprometer o resto da expedição. Se o reconhecimento tivesse sido tão extenso a ponto de se aproximar visualmente do Lago Buenos Aires, chama a atenção que isso não apareça expresso em léguas, jornadas parciais, referências intermédias ou acidentes destacados do terreno.
Se a comissão tivesse avançado tanto para sul, seria de esperar algum rasto mais claro no relato: outros vales, outros cursos de água, acidentes importantes do terreno, mudanças de paisagem ou referências intermédias.
Mas Fontana resume todo o resultado da comissão em poucas linhas.
Não há uma descrição ampla de uma marcha profunda para sul.
Não há uma enumeração dos cursos intermédios.
Não há um relato detalhado da paisagem que teriam atravessado ou visto.
A identificação com o Lago Buenos Aires, portanto, é problemática.
Não impossível em abstrato.
Mas difícil de sustentar sem aceitar demasiadas condições favoráveis ao mesmo tempo: uma marcha muito rápida, uma observação a partir de um ponto excecional, uma distância bem calculada, um diário de Thomas que não registou com clareza a saída, e um relato de Fontana que comprimiu de forma extrema um reconhecimento muito amplo.
São muitas peças para encaixar.

Mapa moderno de referência. A comparação entre o Lago Fontana, o Lago Blanco, a zona de Coyte e o Lago Buenos Aires permite dimensionar o problema geográfico. As linhas ou distâncias devem ser lidas como referências aproximadas, não como reconstruções exatas do percurso.
Segundo candidato: o Lago Blanco
A dúvida sobre o Lago Buenos Aires não é nova.
Num artigo publicado na Revista Argentina Austral, n.º 385, de novembro de 1963, propôs-se outra possibilidade: que o lago avistado pela comissão tivesse sido o Lago Blanco, embora também se mencionasse o Buenos Aires como alternativa menos provável.
…avista um novo lago, que há de ter sido o Blanco, ou então o Buenos Aires (esta última hipótese parece-me menos provável)…
― Revista Argentina Austral, n.º 385, novembro de 1963
Este dado é valioso porque mostra que outros autores também encontraram problemática a identificação com o Lago Buenos Aires.
Mas o Lago Blanco também não resolve completamente o problema.
À primeira vista, tem uma vantagem: está mais perto do que o Buenos Aires. No entanto, a sua localização apresenta dificuldades próprias. O vale do Chalía e o relevo da zona não parecem favorecer uma visão longínqua e aberta do lago. Pelo contrário, o Lago Blanco parece ser um lago que se encontra ao aproximar-se, não um que se avista claramente à distância durante uma exploração rápida.
Além disso, o Lago Blanco também fica a sul do atual vale do Río Mayo. Por isso, não basta dizer que está mais perto do que o Buenos Aires. Para o tornar candidato, seria necessário explicar como chegou a comissão a uma zona de onde pudesse observá-lo e por que razão não ficaram registados outros elementos importantes do caminho.
O arroio Chalía, por exemplo, teria de ter chamado a atenção.
Também a lagoa Quilchamal.
Não são detalhes menores. Para uma expedição que procurava cursos de água, passagens, pastagens e orientação, esses traços dificilmente seriam irrelevantes.
Mas não aparecem com clareza na descrição de Fontana.
Por isso, o Lago Blanco é uma possibilidade interessante como antecedente historiográfico, mas também apresenta obstáculos. Serve para mostrar que a identificação do lago estava aberta a discussão, não necessariamente para a resolver.
Outros espelhos de água menores
Também existem outros lagos ou lagoas na região cordilheirana, como o Lago Las Margaritas.
Mas o seu caso parece ainda menos convincente para este episódio.
Trata-se de um espelho de água pequeno, escondido entre bosques e relevos, bastante mais a sudoeste. Não parece um lago que pudesse ser facilmente avistado ao longe durante uma exploração rápida. Para o encontrar, teria sido necessário internar-se numa zona muito mais específica, com uma dose considerável de acaso.
Por isso, convém mencioná-lo apenas como parte da paisagem regional, não como candidato forte para explicar a frase de Fontana.
Terceiro candidato: Coyte
Se o lago observado não era o Buenos Aires, e se o Blanco também apresenta dificuldades, então surge uma alternativa mais próxima da área provável de reconhecimento: Coyte.
A lagoa ou lago Coyte encontra-se muito mais perto do setor que a comissão de Mayo poderia ter percorrido a partir do entorno do Senguer superior. Também encaixa melhor com uma exploração breve, parcial e realizada com informação incompleta.
Isto não significa que a comissão tenha chegado necessariamente até Coyte.
Também não significa que a identificação esteja resolvida.
Mas Coyte tem uma vantagem importante: exige menos pressupostos.
Não obriga a imaginar uma marcha extremamente longa até à área visual do Lago Buenos Aires. Não obriga a internar-se até ao setor do Lago Blanco atravessando ou reconhecendo outros acidentes importantes que depois não aparecem mencionados. E permite explicar melhor por que razão Fontana falou de um lago para sul sem oferecer uma descrição detalhada.
Coyte, neste sentido, não prova a hipótese.
Mas torna a dúvida mais razoável.

Reconstrução aproximada sobre mapa atual. A distância mínima entre o Lago Fontana e o Lago Buenos Aires ultrapassa os 300 km ida e volta, sem considerar desvios, relevo nem explorações intermédias. A linha reta do mapa moderno não representa o percurso real da expedição.
O rio continua a ser o problema
Ora: mesmo que o lago observado tivesse sido Coyte, isso não resolve automaticamente que rio explorou a comissão de Mayo.
E este ponto é fundamental.
Fontana não disse apenas que viram um lago a sul. Também escreveu que descobriram um rio que descia de oeste. No primeiro artigo já vimos que acrescentou outro detalhe importante: a partir dali, não podendo internar-se para oeste, costearam o novo rio para leste cerca de dez quilómetros e depois cortaram para o rio Senguer com rumo nordeste.
Esse pequeno itinerário é uma das peças mais importantes de toda a discussão.
Porque obriga a olhar para a rede de cursos de água a sul do Senguer superior, não apenas para os lagos.
Nessa zona aparecem vários elementos que devem ser considerados em conjunto:
- o Arroio Verde;
- o sistema de Coyte;
- o Arroio Tacho;
- e, mais a sul, o atual Río Mayo.
O Arroio Verde é especialmente interessante porque apresenta um eixo mais claro de oeste para leste. Essa orientação encaixa bastante bem com a ideia de um rio que descia de oeste e que depois foi costeado para leste durante alguns quilómetros.
O sistema Coyte, por sua vez, relaciona-se melhor com a presença de uma lagoa a sul, mas não resolve por si só a identificação do rio percorrido. A sua orientação é mais oblíqua e não se apresenta como um oeste-leste tão limpo como o Arroio Verde.
Entre ambos aparece o Arroio Tacho, outro curso próximo que obriga a olhar para a região como uma rede de drenagens e não como uma linha simples entre o Lago Fontana e o Río Mayo.
Por isso, Arroio Verde e Coyte cumprem funções distintas dentro da hipótese. O Arroio Verde parece mais compatível com a descrição do curso de água: um rio ou arroio que vem de oeste e pode ser costeado para leste. Coyte, em contrapartida, parece mais compatível com a observação do lago.
Essa diferença impede fechar o problema de forma simples.
A dúvida, então, não é apenas se o lago era Coyte.
A dúvida mais precisa é outra:
O que a comissão viu e percorreu corresponde melhor ao sistema de Coyte, ao Arroio Verde, ou a uma observação parcial reconstruída depois como se pertencesse ao atual Río Mayo?
Essa é a verdadeira dificuldade.

Detalhe geográfico da zona situada a sul do Senguer superior. O mapa deve mostrar a relação entre Arroio Verde, Coyte, Arroio Tacho e o atual Río Mayo. A chave não é traçar uma rota definitiva, mas mostrar que a região forma uma rede de cursos próximos capazes de gerar confusão numa reconstrução posterior.
O que mostra o croquis
O croquis de Fontana também deve ser observado com cautela.
Não é um mapa moderno. Não tem a precisão que hoje exigiríamos a uma representação cartográfica. Mas tem valor porque mostra como a expedição tentou traduzir as suas observações para um plano.
Nesse croquis, a comissão de Mayo aparece como um reconhecimento para sul da área do Lago Fontana e do Senguer superior. O traçado é breve, esquemático, e não parece representar uma longa penetração em direção aos grandes lagos do sul.
Também há outro detalhe chamativo: se Fontana considerava possível que o lago avistado fosse o Buenos Aires, um espelho de água enorme e conhecido por referências prévias, surpreende que não apareça representado com clareza no croquis, nem sequer como uma localização tentativa.
O silêncio gráfico importa.
Fontana menciona o lago no texto, mas o plano não parece atribuir-lhe o mesmo peso. Isso sugere que a informação era incerta, demasiado indireta ou difícil de localizar com segurança.
E ainda há outro elemento que convém observar com cuidado. O percurso atribuído a Mayo no croquis não parece uma linha direta para um objetivo claro. Sugere antes um movimento envolvente ou de reconhecimento, como se a comissão tivesse tentado rodear uma zona, cortar campo e voltar para o Senguer.
Esse desenho pode ser lido de várias maneiras.
Poderia representar simplesmente uma exploração abreviada para sul.
Poderia refletir uma tentativa de encontrar uma passagem ou um curso de água que permitisse avançar para oeste.
Mas também poderia corresponder a um movimento útil para cortar rastos ou cobrir terreno, caso Platero e a sua família tivessem tentado dirigir-se para sul. Não se deve afirmá-lo como facto, mas a forma do traçado permite deixar a pergunta colocada.
Em qualquer caso, o croquis reforça uma impressão: o episódio foi registado como uma exploração limitada e envolvente, não como uma marcha extensa até à área do Lago Buenos Aires.

Recorte do croquis de Fontana correspondente ao setor do Lago Fontana e à comissão enviada sob o comando de Mayo. A imagem deve ser usada como apoio visual do relato, não como prova cartográfica exata.
A ausência de Platero
Ainda resta uma pergunta incómoda.
Se a comissão de Mayo saiu para sul enquanto Martín Platero continuava com a expedição, por que razão não aparece associado a essa partida?
A pergunta importa porque Platero era, pelo menos, um dos homens que mais podia ajudar a orientar-se numa geografia que os expedicionários mal começavam a interpretar. Mesmo que não conhecesse a passagem para o Chile a partir do Lago Fontana, podia continuar a ser útil para reconhecer campos para sul, localizar aguadas, interpretar rastos ou fornecer nomes indígenas de lugares.
Se Mayo ia mover-se por terrenos que a expedição não tinha percorrido, levar Platero teria feito sentido.
Mas o relato de Fontana não o menciona junto da comissão.
E o diário de Thomas mostra outro problema: no dia 1 de janeiro, Platero já tinha fugido. Nesse mesmo dia enviaram quatro homens para o acampamento onde tinha ficado a sua família. No dia seguinte, a partir do acampamento principal, enviaram mais sete homens para tentar alcançá-lo.
A reação foi importante.
Isso sugere que Platero ainda importava muito para a expedição.
Talvez por medo de perder animais ou equipamento.
Talvez porque continuava a ser útil como baqueano.
Talvez porque a sua fuga era vista como um ato grave dentro da disciplina da marcha.
Ou por todas essas razões ao mesmo tempo.
Mas o certo é que a sua ausência muda a leitura do episódio. Se Mayo saiu depois da cerimónia de 1 de janeiro, então já não contava com o principal conhecedor indígena do terreno. E, se saiu antes, continua a chamar a atenção que Platero não apareça mencionado como parte de uma comissão enviada precisamente para explorar campos desconhecidos.
Uma dúvida mais precisa
A esta altura, o problema já não pode reduzir-se a uma única pergunta.
Não se trata apenas de saber se Mayo chegou ou não chegou ao atual Río Mayo.
A dúvida é mais precisa.
Fontana supôs que o lago observado para sul podia ser o Lago Buenos Aires. Mas essa identificação parece difícil por distância, tempo e falta de referências intermédias. O problema aumenta se se recordar que o Lago Buenos Aires fica muito mais a sul do que o atual Río Mayo. Ou seja: não basta imaginar que a comissão alcançou o vale do Río Mayo; seria necessário aceitar que, a partir dali, ou de algum ponto ainda mais favorável, pôde avistar ou inferir um lago situado muito mais longe.
O Lago Blanco foi proposto depois como alternativa, mas também apresenta dificuldades. Não parece um lago facilmente visível à distância, fica também a sul do Río Mayo, e para chegar à sua zona deveriam aparecer outros traços como o Chalía ou a lagoa Quilchamal.
Coyte, pelo contrário, fica muito mais perto e encaixa melhor com uma exploração breve.
Mas, mesmo que Coyte explique melhor o lago, o rio continua em aberto.
O Arroio Verde parece ajustar-se melhor à descrição de um curso que desce de oeste e se percorre para leste. O sistema Coyte relaciona-se melhor com a presença do lago. E o Arroio Tacho acrescenta outra peça a uma rede hidrográfica que não se deixa simplificar.
Por isso, o dado do lago não fecha a investigação.
Torna-a mais interessante.
Porque, se o lago visto por Mayo não era o Buenos Aires, então também devemos perguntar que rio percorreu realmente.
E, para compreender como se pôde mover uma comissão nessa região, ainda falta olhar para uma personagem-chave: Martín Platero.
A sua presença, a sua fuga e a reação que provocou na expedição serão o próximo passo desta investigação.
Fontes citadas neste artigo
- Fontana, Luis Jorge. Viaje de Exploración en la Patagonia Austral. Primeira edição, 1886.
- Thomas, John Murray. “Diario de Viaje de la Expedición de los Rifleros”, em Revista Camwy, n.º 10, Museo Histórico Regional de Gaiman, novembro de 1985.
- “La Compañía de Rifleros…”, Revista Argentina Austral, n.º 385, ano XXXV, novembro de 1963.
